LEAD: A Natureza Selvagem e a Vida Digital
ao vivo com Dene Grigar e Tara Rodgers
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Também disponível em Inglês.
Ver o ensaio de Dene Grigar: "The Emergent and Generative in Nature, the Digital and Art" (LEA Vol 14 No 07 - 08 2006)
Ver o ensaio de Tara Rodgers “Butterfly Effects: Synthesis, Emergence and Transduction” (LEA Vol 14 No 07 - 08 2006)
Os "Debates Leonardo Electronic Almanac" (LEAD) acompanham edições especiais selecionadas do LEA. Os LEAD tem dois componentes,uma seção de bate-papo ao vivo com autores e artistas do LEA e um grupo de discussão moderado em que os leitores podem se envolver com os autores da edição especial.
Edição Especial A Natureza Selvagem e a Vida Digital, editada por Dene Grigar e Sue Thomas (http://leoalmanac.org/journal/Vol_14/lea_v14_n07-08/home.asp).
Bate-Papo ao vivo com Dene Grigar, diretora do programa de Tecnologia e Cultura da Washington State University Vancouver, e Tara Rodgers, pesquisadora canadense, discutindo abordagens da oposição binária que surge do par Natureza/Digital, no contexto de seus trabalhos como artistas e pesquisadoras.
Data do Bate-Papo: Quarta-Feira, 10 de Janeiro.
<TRANSCRIÇÃO>
Marcus Bastos: Oi para todos e obrigado por retornarem. Obrigado especialmente a Dene Grigar e Tara Rodgers, nossas convidadas de hoje, dando continuidade à série de discussões sobre a edição Wild Nature and the Digital Life issue do Leonardo Electronic Almanac, que estão sendo moderadas por mim e Ryan Griffis. Boa conversa para todos, vou começar com uma pergunta que preparei para a Dene.
Dene, em seu editorial para a sessão "gerativo e emergente" (1) da edição atual do LEA você escreveu o seguinte: "Terminamos esta introdução observando que o título de nossa edição especial sugere discutir porque é importante levar em conta o tema da natureza selvagem e da vida digital. Como visto nos ensaios e trabalhos publicados, fazê-lo permite não apenas novas maneiras de pensar sobre o ambiente físico e os sistemas que modelam e emanam dele ou novas formas de criar e antever a arte, mas também novos discernimentos que ampliam o que é humano”. A sobreposição de físico e digital, entre outras coisas, problematiza a existência de fronteiras rígidas ou, pelo menos, desafiam as categorias tradicionais de “natural” e “artificial”. Levando isso em consideração, você pode discutir um pouco quais as implicações de separar/aproximar “natureza selvagem” e “vida digital” pela partícula “E” — que os coloca em oposição dicotômica. Não seria mais adequado levar o tema para além destas oposições?
Dene Grigar: Eu preparei algo exatamente sobre este tópico. Estou interessada na noção de “liminal”... ambigüidade, especialmente no espaço entre homem e máquina. Eu deveria dizer também que eu não leio o “e” em nosso título como um binário, mas com o “e” do mev de Grego — ambos/e. A idéia que a natureza selvagem e a vida digital podem ser vistas em conjunto e separadamente permite locais interessantes de divisão e intersecção. Como eu mencionei para o Marcus [em troca de e-mail paralela que tivemos] semana passada, isso nos permite recuar e pensar em... não nas distinções entre humano e tecnologia, mas, de alguma maneira, nos espaços liminais entre eles... natureza e humanidade, mediadas como elas são pelas tecnologias informáticas.
MB: Acho que o artigo da Tara aponta para este "entrelaçamento" (ou “liminaridade"?) , quando ela explica que uma de suas tarefas no projeto com as monarcas é “localizar pontos de ruptura nas narrativas típicas, heteronormativas do natural” (2). Algum comentário sobre isso, Tara?
Tara Rodgers: Sim – eu concordo com o comentário da Dene sobre a liminaridade – semelhante à forma como eu me refiro à noção de “transduções” de Adrian Mackenzie, que eu considero uma forma produtiva de conceber a natureza selvagem e a vida digital como um fluxo de arranjos ou relacionamentos recíprocos entre realidades que são constituídas mutuamente... claro que as “transduções”, num nível técnico, operam através do som.
DG: Você cita Mackenzie... eu estava pensando em David Chaannell. "The Vital Machine" (http://www.amazon.com/Vital-Machine-Study-Technology-Organic/dp/0195060407/sr=8-1/qid=1169240200/ref=sr_1_1/105-9921442-8486024?ie=UTF8&s=books).
TR: Você pode falar um pouco mais [sobre o livro]? Não estou familiarizada.
DG: O livro já tem uns quinze anos, ele examina as novas formas que o homem tem que entender seu lugar no cosmos. E claro que eu penso em Aristóteles e como ele separa homens e animais... a idéia de categorizar, fazer distinções finas ao invés de olhar para as conexões entre os tipos. Essas visões filosóficos nos moldaram tremendamente, não foi?
MB: Com certeza. E isso me lembra de uma citação que ouvi quando eu estava fazendo doutorado, infelizmente não consegui identificar a fonte.... “Se é da natureza do homem engendrar o artifício, então não é possível separar natural e artificial”.
DG: um/outro ao invés de ambos/e. Acho que o trabalho da Tara aborda estas conexões maravilhosamente.
TR: Obrigado, Dene – eu me inspirei na noção de “vivacidade” de Donna Haraway ... que a “vida em si” foi fetichizada, na prática científica [entendida] como um contendedor do objeto de estudo...
DG: Ah sim, a hibridez. A noção de híbrido é interessante, não é? Ao ponto que ele [o híbrido] se torna mutante. Daí as obras na galeria (http://leoalmanac.org/gallery/digiwild/index.htm). A forma como pensamos em ambos/e como monstruoso... uma perspectiva que o trabalho investiga por meio de sua estranha beleza.
Ryan Griffis: Pensando em Haraway, Tara, eu li recentemente um artigo que ela apresentou numa conferência na UC Irvine, chamado Capital Vivaz...
TR: Parece interessante...
RG: Ela discutiu o crescimento da comodificação dos relacionamentos entre animais de estimação e seres humanos, usando o próprio relacionamento com seu cachorro como exemplo. O discurso em torno do humano/não-humano e das “políticas da natureza” (para ir a Latour) parecem realmente cruciais no momento.
TR: Sim – muito do meu interesse em trabalho com sons sintetizados vem de uma abordagem politizada do pensamento sobre o som (toda a política que as tecnologias sonoras contém)
Sue Thomas: Ryan, porque você acha que as políticas da natureza são mais importantes agora que em qualquer outro momento?
RG: Latour fala sobre a problemática da Ciência (em oposição às ciências) que trata da Natureza como uma forma de evitar decisões políticas.... talvez sua voga esteja alicerçada no crescimento da consciência de situações ambientes potencialmente catastróficas, entre outras coisas?
ST: Estou apenas tentando entender se esta tensão não é algo que sempre existiu, ainda que as condições que a produz mudem. De qualquer forma estou saindo um pouco do tema, desculpe!
RG: Boa observação, mesmo assim.
TR: E completamente relevante para a arte digital porque, especialmente na cultura da música eletrônica, houve uma fetichização das novas tecnologias, muitas vezes sem levar em conta, vamos dizer, implicações ambientais da obsolescência planejada de resíduos tecnológicos — o que faz isso tudo ainda mais interessante é que parece haver um tipo de virada “natural/selvagem” acontecendo, com vários artistas abordando temas da “natureza” agora.
RG: Tara, você pode citar alguns exemplos do trabalho feito com som que leva em conta implicações políticas?
TR: Você pode consultar a seção que eu editei recentemente na LMJ 16 (a nova edição de 2006) chamada “som e organização social do espaço' (http://leonardo.info/lmj/lmj16.html)
RG: Eu sou fan do Ultra-Red, de Los Angeles, que acho que usa o som com fins explicitamente políticos.
MB: Tara, você mencionou em seu artigo uma guinada de formas de representação visual para outras formas de representação, você pode falar um pouco sobre isso?
TR: Eu acho que eu estava me referindo a cientistas que usam técnicas de sonorização de informações para facilitar interpretações diferentes das que o visual fornece. Uma artista que trabalhou bastante nesta área, em colaboração com cientistas, foi Andrea Polli (http://www.andreapolli.com/).
Cynthia Rubin: Eu tenho uma pergunta sobre a diferença de andamento entre som e visual, música e arte. Nossa tendência é entendê-los em medidas diferentes — uma nota sustentada não é a mesma coisa que uma imagem parada. Tara, e outros — como vocês abordam estas diferenças de percepção?
TR: Eu tinha resistência em trabalhar com vídeo por muito tempo, porque eu gosto da idéia de perceber o som em seus próprios termos e então eu me debati com várias formas de combinar som e imagem até que me estabilizei com o vídeo.
CR: O que fez você se voltar para o vídeo?
TR: Produzir peças em que o vídeo representa o sinal de áudio. Inicialmente, eu me voltei para o vídeo porque eu tive que fazer um curso :)
MB: O vídeo não é “musical”, no sentido de que o ritmo é importante para sua construção? (Quer dizer, no vídeo o componente visual não é tão forte quanto, digamos, no cinema ou na fotografia)
CR: O ritmo também é importante em imagens fixas – a forma como a imagem é lida – o andamento de os detalhes se desdobram
TR: Absolutamente, você pode ler imagens em termos de som e vice-versa.
MB: Certamente. Mas isso é mais óbvio numa imagem do Kandinski, por exemplo, já que a representação não está em jogo. Não é tão óbvio em imagens figurativas, por exemplo.
CR: Marcus – eu acho que é óbvio em exemplos figurativos – é só que estamos socializados para ler a figura antes.
MB: Boa observação.
CR: Então minha questão está relacionada com extrair estruturas da Natureza, e então ver o que acontece se estruturas e ritmos são aplicados da mesma forma em imagens e sons... o andamento pode ter raiz na mesma fonte, mas os resultados são muito diferentes.
TR: Verdade, mas isso não depende de como as decisões de mapeamento são feitas? Ainda que talvez seu ponto inicial é que há uma boa diferença na velocidade de desdobramento, por exemplo, 30 fps vs 44.1K.
CR: E para levar isso adiante – uma das coisas que me chamaram atenção quando eu fui ao festival "Ear to the Earth", em NY este outono, é que agora com gravações do mundo real os compositores enfrentam as mesmas questões (estou indo rápido aqui – eu estava me referindo à socialização da percepção). Então – os compositores que trabalham com sons do mundo real estão apegados às mesmas questões de andamento – onde eles pretendem uma leitura mas a audiência responde de maneira diferente, a não ser que tenha uma formação em música?
TR: Em que compositores você está pensando?
CR: Eles estão listados em: http://www.eartotheearth.org/artists
RG: Eu acho que isso traz uma boa questão... qual o papel das linguagens especializadas na representação de dados por som, ou seja, quais os conhecimentos históricos necessários para partilhar [estes dados]? (Claro que questão não se restringe ao som, mas para a nossa discussão...)
CR: Boa pergunta – meus alunos estão estudando “Design Science”, de Arthur Loeb (a RISD tem seus escritos e acervo) e Bucky Fuller... conhecer este pano-de-fundo informa exercícios simples de design e a forma como eles olham para os motivos culturais.
TR: Eu acho que muitos trabalhos voltados para dados (meu próprio incluído) demandam mais texto na parede, talvez, que peças de ecologia acústica, que podem envolver mais o ouvinte ao evocar um sentido de lugar. Ainda que eu também tente criar trabalhos que são sonoramente estimulantes, e que espero que possam ser apreciados sem explicação.
CR: O sentido de lugar não pode ser mais abstrato (como parece ser no seu trabalho)?
TR: Certamente – mas há uma diferença entre a sonorização das coordenadas de latitude/longitude e, por exemplo, o som dos pássaros nas gravações do rio Hudson feitas por Annea Lockwood (que me lembram do lugar onde cresci). Talvez o sentido de nossas memórias vs. as memórias do computador.
CR: Como a memória do computador se relaciona com a memória cultural? Existe um paralelo na codificação? Imposição/destilação de estrutura?
TR: Boa pergunta... eu gosto de pensar que há paralelos no armazenamento mas também no acesso seletivo e na entrega dos dados... ambos são meios em que há perdas.
CR: Exatamente – e a perda pode ser uma boa coisa!
TR: Ou perigosa!
CR: Sim! Ela também pode ser entediante – importante para manter a complexidade dos relacionamentos ou estimular/oferecer novos discernimentos.
RG: Obrigado por participar do bate-papo e trazer ótimas questões e comentários Cynthia! Obrigado pela conversa e pelos apontamentos para mais informação/trabalhos Tara.
MB: Obrigado Dene e boa noite para todos.
<fim da transcrição >
Biografias dos Autores
Dene Grigar é pesquidora e artista de mídia e diretora do Diretora do programa de Tecnologia e Cultura da Washington State University Vancouver. Seus livros incluem "New Worlds, New Words: Exploring Pathways in and Around Electronic Environments" (com John Barber) e "Defiance and Decorum: Women, Public Rhetoric, and Activism" (com Laura Gray and Katherine Robinson); seus trabalhos de arte em mídia incluem "Fallow Field: A Story in Two Parts" e "The Jungfrau Tapes: A Conversation with Diana Slattery about The Glide Project," ambos citados pelo Iowa Review Web em Outubro de 2004, e "When Ghosts Will Die" (com o artista multimídia canadense Steve Gibson), uma peça que experimenta tecnologias e rastreamento do movimento para produzir narrativa. O video do trabalho foi indicado Finalista no Drunken Boat Panliterary Award Competition e foi exibido no Art Tech Media 06 na Espanha. Seu trabalho mais recente é "MINDful Play Environment", um jogo em ambiente interativo, ao vivo, que ela está desenvolvendo (com Gibson) para o Oregon Museum or Science and Industry. Ela também é editora associada da Leonardo Reviews e editora internacional de Computers and Composition.
Tara Rodgers é pesquisadora Fulbright do Canada-EUA, no Communication Studies PhD program da McGill University. Ela tem um MFA em música electrônica pelo Mills College, e recentemente ensinou no escola do Museum of Fine Arts de Boston. Ela exibiu arte sonora e em vídeo nos EUA, Reino e Canadá, e lançou gravações (como Analog Tara) em compilações como Source Records/Germany e the Le Tigre Remix. Seu livro, Pink Noises: Women On Electronic Music and Sound, está sob contrato com a Duke Unversity Press. Mais informações:
http://www.safety-valve.org/

Referência para citação desta Transcrição de Bate-Papo dos Debates
Leonardo Electronic Almanac (LEAD)
MLA Style
Grigar, Dene and Rodgers, Tara. “Dene Grigar and Tara Rodgers: LEAD – Transcrições de Bate-Papo A Natureza Selvagem e a Vida Digital”, “Unyazi” Edição Especial, Leonardo Electronic Almanac Vol. 15, No. 1 - 2 (2007). 1 Jan. 2007 <http://leoalmanac.org/resources/lead/digiwild/grigarrodgerspt.asp>.
APA Style
Grigar, D and Rodgers, T. (Jan. 2007) “Dene Grigar and Tara Rodgers: LEAD – Transcrições de Bate-Papo A Natureza Selvagem e a Vida Digital”, “Unyazi” Edição Especial, Leonardo Electronic Almanac Vol 15, No. 1 - 2 (2007). Visitado em 1 Jan. 2007 no endereço <http://leoalmanac.org/resources/lead/digiwild/grigarrodgerspt.asp>
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